Amor e Ódio


As ações humanas servem de base para o desenvolvimento de sentimentos diversos, principalmente os de ódio e amor. Ao realizarmos algo, e por alguém, causaremos uma impressão direta de simpatia, desprezo ou raiva em função dos resultados surgidos. Isto é naturalmente aceitável em nosso fazer diário: ao agradarmos alguém, sempre desagradaremos o outro.

Ao agirmos desta forma, estaremos provocando energias não somente porque as incomodamos, mas também, pelo fato de termos emitido as nossas, que, para uns, são bem vindas; e para outros, não. Repito: é natural. O que não é natural é o surgimento de laços profundos de amor é ódio em função de um agrado ou desagrado sofrido.

Quando o amor acontece, sentimo-nos plenos em nossas atitudes porque elas estão fortalecidas por um motivo eminentemente maior do que os nossos: a pessoa amada. Passamos a pensar no outro, quando nem pensávamos tanto; planejamos obras incríveis em função dele, ou dela, sem nem entendermos de projetos.

Ao surgir o ódio, a ojeriza por alguém se torna forte demais ao ponto de não enxergarmos qualquer qualidade passível de elogio. Ao contrário do amor, desejamos que aquela pessoa desapareça da nossa frente por acharmos a sua presença um obstáculo à nossa felicidade.

De forma simplificada, podemos utilizar estes dois sentimentos para darmos substância à análise das relações humanas dentro da realidade da terceira dimensão. Não é de bom alvitre à natureza humana deixar-se levar pela dualidade dos sentimentos, como se a existência fosse composta por, apenas, dois aspectos emocionais do pensamento. Não é isso, pode crer!

Verdadeiramente, amor e ódio estão separados por fios muito tênues, alimentados pelas opiniões e julgamentos de valor que fazemos do outro e das situações. Isto não significa, entretanto, que nossas avaliações sejam verdadeiras. Podem ser, portanto, extemporâneas e ligadas aos nossos interesses não (ou parcialmente) atingidos.

Quem ama pode odiar profundamente o objeto do seu amor. Quem odeia pode amar loucamente o objeto do seu ódio. Estes sentimentos fazem parte da mesma energia e não adianta evitar um ou outro, sempre acontecerá. E quando o amor se torna ódio, e vice-versa? Bem, o amor dá sinais de estar se transformando em ódio quando se mostra uma atitude mais de apego e possessão do que de respeito e humanidade. O ódio torna-se amor quando nos rendemos ao vencedor-odiado, voluntariamente.

Não se trata de chauvinismo da minha parte dizer estas coisas sobre dois lados tão distintos e, ao mesmo tempo, tão próximos nas emoções humanas. Tampouco é minha intenção fazer comparações, sejam elas estabelecidas nas diferenças ou nas semelhanças de um sentimento em relação ao outro. Não é, ainda, platonismo barato da minha parte estabelecer que amar é sofrer, porque, no fundo, você gostaria de odiar a quem você ama. Mas não consegue.

O poeta português Luiz Vaz de Camões (1524-1580), em seu delírio cósmico, insistiu em mostrar o quanto o amor queimava sem que a vítima sequer sentisse o ardor, teimou ao dizer, também, o quanto doía o amor sem que o ferido percebesse tamanha dor; e ainda declarava-se enfraquecido por esta grande força, não desejada por ele; mas nunca dispensada. Como retaliação a este sentimento incômodo, Camões criticou a sua solidão, apesar de estar acompanhado, o seu contentamento, embora estivesse triste, a sua vitória, mesmo tendo sido derrotado.

Em contrapartida, o médico austríaco Arthur Schnitzler (1832-1931), em seu livro "Relações e Solidão", informa como o ódio liga, muitas vezes, dois indivíduos, um ao outro, mais do que o amor. E apresenta como resultados do ódio a inveja, o ciúme, o rancor, entre outros; e como conseqüência do amor, a amizade, a solidariedade e a paixão.

O que devemos fazer para evitar sentir ódio? Penso que não devemos fazer coisa alguma. Afinal, isto é uma força da alma e não pode ser calada. Acho melhor tentarmos controlar o nosso ódio do que buscar matá-lo dentro de nós. Lembra-se do que falei? Ódio é amor, e amor é ódio. Ao querer aniquilar o ódio, você estará matando o amor; ao querer sufocar o seu amor, estará definhando o seu ódio. Para mim, estas duas forças devem existir em equilíbrio. Odiar é ruim, assim como amar intensamente é tão ruim quanto.

E como podemos manter um equilíbrio entre os sentimentos de ódio e amor? Olha, cada organismo emocional tem o seu ponto homeostático. Não há como alguém de fora determinar o que é bom ou ruim para você sentir. Se alguém lhe disser: ame muito! Tenha medo deste conselho. Se lhe disserem: odeie bastante! Fuja desta demanda. Conclusão: busque encontrar o equilíbrio entre as forças atuantes em você através do seguinte parâmetro: minha homeostase não pode existir em função do desequilíbrio do meu próximo.

Partir da homeostasia como parâmetro capaz de consubstanciar decisões sobre as melhores estratégias a serem implementadas, na busca pelo melhor ponto de convergência à sua tranqüilidade, também chamada de "paz de consciência", possibilita uma melhor avaliação sobre os atributos isonômicos possíveis das relações de poder entre o que se convencionou classificar como ódio e amor, sobre os quais afirmei fazerem parte da mesma energia.

Ame, mas tenha cuidado com o ódio. Odeie, mas se abra para o amor. Equilibre-se nesta fina corda bamba, e variante, das emoções possíveis de levar ao chão o aventureiro dedicado, demasiadamente, a um dos lados da força. Talvez fosse melhor ficarmos um pouco lá e cá, como na corda trêmula, a se balançar impreterivelmente para um canto ou para o outro. Analise-se, descubra-se, integre-se e seja feliz. Não se esqueça de orar e vigiar.

Autor: Gesiel Albuquerque
Imagem copiada de: http://lilicabel.blogspot.com/

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